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O Tinquin seria engenheiro, mas virou o craque Bobô
Por Esquivel, Larissa e Danielí
A. E. / L. B. / D. N.: Você pretendia fazer Engenharia, seus pais queriam, mas você começou a jogar na Catuense, você acreditava que iria alcançar tudo o que você conquistou em sua vida? Até onde você achava que iria na carreira de futebolística?
Bobô: Eu nunca fui um garoto que, como eu vejo hoje, vai para a escolinha do time já com a idéia fixa de ser jogador. Se não tivesse acontecido ali, para mim não teria nenhum problema. Eu não ia ficar deprimido. Pra mim, foi até legal, porque eu não estava “encucado”. Fiquei depois, mas, durante o tempo que eu fiquei fazendo avaliação lá, treinando só com os profissionais. Foi até mais difícil. Eu poderia ser “rifado” desde um processo muito mais complicado e seletivo porque você treinar com os
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Com o troféu do Brasileirão | profissionais é bem diferente de que você treinar com os garotos de sua idade. Você tem bem mais condição de render com garotos de sua idade do que com os profissionais maduros, preparados...
A. E. / L. B. / D. N.: Mas, ao mesmo tempo, se o grupo for bom e te apoiar, você cresce muito com essa experiência...
Bobô: Eu tive o privilégio de começar na Catuense. Sempre disse que foi a coisa mais acertada que eu fiz na minha vida. O conceito que consegui durante esses anos todos foi fruto da decisão inicial de ir pra lá, porque eu poderia ter vindo pro Bahia. Não teria as mesmas oportunidades que me foram oferecidas na Catuense, porque eu era um garoto e iria jogar nos juniores. Ia ter todo o problema de esperar tempo e a política do clube mudar para poder jogar. No Vitória a mesma coisa. Então, pra mim, a coisa mais acertada foi tentar ver se dava certo na Catuense, por ser um clube emergente, era o primeiro ou segundo ano do clube na 1ª divisão, e deu muito certo, porque a Catuense, naquela época, começou a crescer bastante.
A. E. / L. B. / D. N.: Você exerceu diversas funções em campo ou sempre jogou como meia atacante?
Bobô: Não. Eu jogava como volante, mas, por ter muita técnica e não gostar de marcar, fui mais pra frente, como meia-armador, e depois me tornei ponta de lança. Mas, no final de minha carreira, comecei a jogar como segundo atacante, inclusive no Bahia. No Fluminense-RJ eu já não queria mais fazer beirada de campo e já tinha mais nome e status, aí você fica um pouco mais exigente. Quando era mais jovem, joguei nessa posição, mas eu não tinha a mesma eficiência que meu irmão Renilson tinha. Eu jogava ali porque os dois meias jogavam muito, jogavam mais do que eu, então me puseram mais pra trás, só para me encaixar ali, entendeu? Aí tinha o meia-esquerda que jogava muito, jogou comigo na Catuense, chamado Cléo, e tinha um outro que jogava barbaridade também, eram bem mais velhos do que eu. Para mim, foi bem legal porque, com eles, eu comecei a me desenvolver. Não é fácil. Hoje você pega a molecada lá, 1,90m, robusto, forte mas, na minha época, era muito complicado, porque você não tinha acesso a tantas vitaminas como tem hoje, essa coisa toda. Antes você jogava, almoçava (comia feijoada), e ia jogar. Hoje você não come mais nada disso, é um purê, é um arroz, uma salada e um frango grelhado ou um bife grelhado e tal... Eu nunca tive problema nenhum. Mas hoje você tem uma alimentação muito melhor e a garotada de 13, 12 anos, parece hoje que tem 18. Eu era muito seco, cara! Desnutrido, tinha barriga grande de verme (risos)...
A. E. / L. B. / D. N.: Por isso te chamavam de Tinquin?
Bobô: “Tinquin” é um bichinho pequeno, magro e seco e em Bonfim me chamavam de Tinquin. Não sei por que você lembrou desse troço (risos). Até hoje, quando eu chego na cidade, me chamam: “ô ‘Tinquin’, vem cá”... É engraçado, eu não estava mais me lembrando desse apelido. Foi o Henrique, um amigo de infância, e até hoje, quando eu chego em Bonfim, todo mundo fala: “chegou Tinquin”. Eu era muito pequeno, o tinquin veio em função disso. O Bobô foi mais porque minha irmã não sabia falar direito meu nome, ela era muito pequena.
A. E. / L. B. / D. N.: Você foi superintendente das divisões de base do Bahia. Realmente houve um crescimento profissional nos clubes quanto à formação do atleta? Quais as mudanças mais significativas, não só na alimentação, mas na preparação para uma partida, do período em que você era jogador da divisão de base para hoje?
Bobô: Hoje é totalmente diferente. Um garoto de 13, 12 anos, já tem acesso a uma sala, já tem acesso a um profissional qualificado, já tem acesso à nutrição, já tem acesso à fisiologia, já tem acesso ao “diabo a quatro”. Então, esses meninos já saem preparados. Com 15 anos, já podem jogar no futebol profissional com a mesma intensidade. É claro que o treinador diminui o ritmo do cara, segura um pouquinho, pela juventude dele, que pode ter um comprometimento na parte muscular, essa coisa toda. Mas, na minha época, não: “Entra! Faz o que o outro faz” e, quando eu não fazia, ficava aborrecido, achava que eu não ia render tanto quanto aquele que estava fazendo mais. O futebol mudou muito, virou mais dinâmica, mais força... Muito mais força. E a qualidade do futebol hoje é inferior por conta disso, porque hoje, no futebol de base, não se trabalha muito a qualidade técnica, ou seja, você não corrige as deficiências técnicas no atleta, você trabalha muito a questão da força.
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Momento de festa no gramado |
A. E. / L. B. / D. N.: Como você encarou sua primeira lesão grave, de ligamentos no joelho? Você era bem jovem...
Bobô: Quando fui pra Catuense, sempre tinha aquele prazer. Depois vêm os pesadelos da vida. Quando você está dentro de uma coisa que você gosta, está fazendo com sentimento. Eu adorava entrar em campo e ver aquela multidão nas arquibancadas. Você sabe o que eu gostava? Era quando faziam “OOOOOOh!”, você fazia uma jogada e “OOOOOOOOOh!”, é o maior barato (risos). E tudo isso passou na minha cabeça quando eu me lesionei. Foi uma lesão gravíssima, na Fonte Nova, num jogo Catuense x Vitória, um lance involuntário do jogador do Vitória. Foi até o goleiro, não percebi, não tinha malícia para me defender na época, eu era muito jovem. Isso aconteceu com 18 anos e meio para 19 anos e virou um pesadelo na minha vida. Naquela época, imagine: rompi os três ligamentos e rompi também o menisco. Minha perna ficou solta. Imagine que tinha saído do interior, nunca tinha tido nenhum tipo de lesão, quando vejo minha perna daquele jeito, uma dor insuportável e o médico sem saber o que fazer... Precisou um jogador experiente, como o Beijoca, que já tinha tido lesão daquele tipo, dizer: “Não, rompeu o ligamento. Tira de campo”. Tinha dois minutos de jogo. Foi um trauma para mim. Eu vivia perguntando a Deus por que tinha acontecido comigo. Naquela época, a recuperação era muito mais traumatizante do que hoje, porque fiquei dois meses e meio com gesso na perna. A minha perna atrofiou de tal maneira que pensei que não tinha mais perna. Hoje o cara faz a cirurgia e sai até andando. Eu fiquei com a perna pra cima em uma cama, na casa de seu Antônio Pena, ali em Itapuã, durante dois meses, mais ou menos. Pra mim foi interessante porque eu vi muito amor ali. Eu vi as pessoas que estavam ao meu redor e criei um laço afetivo muito grande com a empregada, com a dona da casa, a mulher de Seu Antônio, a filha, que até hoje me tem como um irmão, me ligam, preocupados comigo, é muito legal. Mas eu me vi num dilema terrível. Eu cheguei a pensar em parar.
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