4 de setembro 2010
 
 

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De 1988 ao século 21: o que mudou, segundo Bobô

Por Esquivel, Larissa e Danielí

A. E. /L. B. / D. N.: 1988 foi, talvez, o grande ano da sua carreira profissional como jogador de futebol. Conte um pouco sobre como foi esse ano para o Bahia, da entrevista que Evaristo de Macedo, então técnico do time, na qual ele afirma que não acreditava que o Bahia chegaria tão longe. 

 

Bobô: Eu acho que o meu grande ano foi 1986. Eu tive uma performance muito boa, já era veterano. 1988 foi um ano muito especial porque o Bahia veio com o mesmo time de 1986. Os veteranos foram embora, aí o Bahia começou a montar um time muito arrumadinho, um time de garotos, todos eles com um sonho na cabeça, todos sem a preocupação se iam conquistar o título ou não, mas queriam fazer uma grande performance. A gente nunca pensou em ser campeão Brasileiro, sabe por quê? 

Após encerrar a carreira nos gramados,
Bobô atuou na imprensa como colunista
esportivo e apresentador de televisão

Porque quando você recebe a mídia de São Paulo na sua cara, aí vem lá “Flamengo se prepara para ser tricampeão”. Vêm os jogadores da Seleção Brasileira dando depoimento, aí você pensa: nós vamos jogar com esses caras lá no Maracanã. A gente não vai ganhar, não. O Bahia já vinha com um tri-campeonato Baiano, muito bem arrumado, com um treinador capacitado e exigente, o Evaristo, sempre preocupado com a performance. À medida que passávamos de fase, íamos acreditando no grupo e nos fortalecendo. Lembro que tomamos 3x0 do Internacional-RS no Beira-Rio, logo na primeira fase. Todo mundo ficou cabisbaixo, mas falamos: “vamos dar a volta por cima”. Depois fomos para o Rio, levamos 3x1 do Fluminense, no Maracanã. A gente ia rápido, mas depois caía um pouquinho porque a gente estava ainda encontrando o melhor do futebol. A gente pegou uma interrupção e, depois do carnaval, já foi o mata-mata. Aí a performance foi sempre muito acima dos outros clubes. Quando nós passamos do Sport (PE), foi quando tivemos a certeza de que poderíamos chegar ao título.

 

A. E. / L. B. / D. N.: Quando você saiu do Bahia para o São Paulo, foi a maior transação da época...

 

Bobô: Isso. Foram US$ 800 mil mais três jogadores cedidos ao Bahia. Chegou a US$ 1.190 milhão, mas chamou atenção de todo mundo: “Que é isso? Muito dinheiro”. E a gente não está falando de uma década muito distante, não. A gente está falando da década de 1990.

 

A. E. / L. B. / D. N.: Você acredita que a tendência é, cada vez mais, aumentar esse valor de venda?

 

Depois assumiu a
direção técnica
 do Bahia

Bobô: Eu acho que não. Não tem como aumentar. Porque quem faz isso aí, na verdade, são as TVs. Hoje as grandes receitas do futebol mundial são fruto de televisão. Cair, não cai. Hoje você pega um clube como o Bahia, por um jogador comum o Bahia paga R$ 20 mil, R$ 25 mil, R$ 40 mil. Um atleta mediano ganha R$ 70, 80 mil. Um grande atleta no Brasil já chega a R$ 200 mil, o Brasil já paga salário de Europa. Na minha época, isso era bem distante porque tinha caixa dois. O clube pagava uma parte em dólar, outra parte na carteira. A carteira era uma miséria! Tinham os encargos sociais e tudo, mas te pagavam em dólar e deixavam você depois se lascar aí com o Imposto de Renda. Era terrível. Hoje, não. Você tem o direito de imagem, que o clube te paga, são dois ou três salários que você tem, tem a carteira, que é o salário oficial. O atleta tem cinco mil na carteira e 50 mil no direito de imagem. É uma forma também que os clubes encontraram para diminuir os impostos. Pagam bem, é obrigatório. Mudou o futebol, eu acho até que ele mudou pra melhor nesse aspecto de tratar melhor o atleta, do atleta ter liberdade. Na minha época, o atleta só ficava livre aos 32 anos de idade. Ele era escravo dos clubes e muitos deles ficavam sem receber durante um ano quando pegavam um dirigente mau-caráter.

 

A. E. / L. B. / D. N.: Você pensa que os clubes, depois da Lei Pelé e até um pouco antes, com a profissionalização do futebol de verdade, não se prepararam para essa profissionalização, por isso eles devem o que devem hoje?

 

Bobô: Eu não acredito que os clubes, mas a maioria dos dirigentes. Teve prazo pra se preparar, pra se profissionalizar, dois anos pra se adaptar à lei e eles não fizeram isso. Entraram com aquela tropa de choque lá em Brasília, com os Deputados Federais, pra ver se mudavam a lei. Eu acho que os clubes até hoje não se modernizaram, a grande maioria. O Bahia é um claro exemplo disso: falta modernização, vive no passado, é um feudo e com esse clamor popular de que tem que se democratizar, tem que melhorar, mas isso não aconteceu até hoje.

 

A. E. / L. B. / D. N.: Grandes clubes no mundo e no Brasil estão buscando esses grandes jogadores para fazer parte da administração. Você acha que isso ajudaria o Bahia? Trazer seus grandes ídolos do passado e formar uma cúpula de notáveis...

 

Bobô: Daria, sim. O Bahia há muito tempo não tem um ídolo, não tem um jogador de referência, tem ídolo momentâneo. O último ídolo do Bahia foi o goleiro Émerson. O Bahia está muito longe do ideal. Émerson não era aquele cara que leva multidão ao estádio, era apenas a segurança do torcedor porque o cara é muito bom no gol e então o time não iria tomar gol. Mas ele não sabia quem ia decidir a partida lá na frente. O ídolo é aquele que o cara diz: “estou indo ver meu Bahia, mas estou indo ver ‘fulano’ jogar”. O garotinho fala “eu quero ver não sei quem”... Ele não vai ver nem o time jogar, ele vai ver o ídolo. O Bahia perdeu essa identidade, essa referência, a partir do momento em que não formou um outro ídolo, gastando um pouco mais de dinheiro trazendo alguém de nome ou na formação de um jogador, segurando um atleta da base, para que ele seja a grande referência, o grande chamariz de torcida e respeito ao clube.

 


Ficha Técnica

Conteúdo produzido por estudantes do 3º semestre, em 2008.1, para a disciplina Redação III sob orientação do(a) professor (a) Lilian Reichert

Autores: Alex Esquivel, Larissa Barbosa e Danielí Nunes.