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"Apesar de você" a Tribuna saiu
História da fundação do jornal Tribuna da Bahia. Em plena ditadura militar, o veículo surgiu disposto a revolucionar a cena da imprensa baiana.
Por Iris Queiroz e Sara Gomes
irismgqalmeida@gmail.com / saramcgomes@gmail.com
Na década de 1960, a cidade de Salvador, como todo o Brasil, passava por grandes transformações nas diferentes esferas da sociedade. No cenário político, desfilavam atores como Luís Viana Filho, que governou o estado entre 1967 e 1971, e o então prefeito da capital Antônio Carlos Magalhães.
Eram os anos mais rigorosos do regime militar, que teve seu ponto alto em 1968, com o decreto do Ato Institucional nº5, o qual concedia amplos poderes ao Presidente da República e suspendia várias garantias constitucionais.
As mazelas dos chamados "anos de chumbo" foram abordadas por muitos compositores brasileiros, como na letra da canção Apesar de você, de Chico Buarque.
Nesse contexto, surgiram o Centro Industrial de Aratu, complexo fundado em 1967, e o Pólo Petroquímico de Camaçari, primeiro centro petroquímico planejado do país, no final da década de 1970.
Em meio a essa efervescência, o empresário Elmano Silveira Castro e o jornalista José Quintino de Carvalho lançaram o jornal Tribuna da Bahia, um periódico com propostas diferentes do que então se via no cenário da imprensa baiana.
O impresso ganhou as ruas da capital em 21 de outubro de 1969 e logo ficou conhecido pela proposta editorial inovadora, pela linguagem utilizada e por ser um dos primeiros jornais do Brasil a implantar um manual de redação. Inovações es A idéia era produzir um jornal com a impressão em offset e colorido, com textos leves e diretos, além de utilizar fotografias de maneira diferente dos impressos que circulavam na época.
“Logo nos primeiros meses saiu o resultado do vestibular da UFBA. Enquanto a maioria (dos jornais) ainda estava linotipando os nomes, a Tribuna já estava sendo vendida na porta d’A Tarde, na Praça Castro Alves, porque a gente chegou, fotografou as listas, imprimiu a edição extra e já estava vendendo. Aquilo era um absurdo. A gente conseguia fazer coisas fantásticas”, lembra o jornalista Sérgio Mattos (foto ao lado).
Apesar de ter surgido em meio à ditadura, quando todos os veículos “respiravam” os ares da censura, a Tribuna revolucionou o modelo de jornalismo existente em Salvador ao criar a Escolinha TB de Jornalismo, responsável por capacitar jovens universitários interessados em seguir a profissão.
“Uma das propostas era eliminar os vícios de linguagem que havia no jornalismo em geral e tornavam a leitura mais difícil. A gente buscava também um texto mais enxuto, mais objetivo e mais claro”, afirma o jornalista Carlos César Franco Lima Gomes, conhecido como Pancho Gomes.
Cartilha
Já que a intenção era revolucionar a imprensa baiana, Quintino de Carvalho foi mais longe para fazer da Tribuna um jornal completamente diferente dos impressos que circulavam, criando a Escolinha TB de Jornalismo, em 1968. O primeiro passo para que isso acontecesse foi preparar um grupo de universitários das faculdades de Direito, Letras, Filosofia e Medicina.
Durante as reuniões que aconteciam diariamente no primeiro andar de um prédio localizado no Comércio, os jovens aprendiam técnicas para elaborar pautas, escrever textos e editar. Vale lembrar que a escolinha se baseava em uma cartilha. “Existia um livrinho com as regras básicas e coisas que você não deveria fazer”, conta Pancho Gomes.
Selecionado por Quintino para fazer parte da equipe, Osvaldo Gomes afirma que essa época não foi esquecida. “Quintino pegou três salas no Comércio, enquanto estava construindo o prédio da Tribuna. Fazíamos pautas e matérias para que, quando o jornal saísse, nós já estivéssemos com algumas matérias prontas para usar”, relata. Segundo ele a escolinha durou até o lançamento do jornal, em 1969.
No final de 1969, a “exigência” de uma formação de ensino superior em cursos de comunicação passou a ser fundamental para o exercício da profissão de jornalista.
“Naquele período, no mesmo ano, houve o reconhecimento da profissão, mas que dava direito a quem já estava em exercício continuar trabalhando. Então quem estava trabalhando, quem estava dentro da redação, foi considerado como um jornalista diplomado”, relembra Sérgio Mattos.
Contra “picaretagem”
Um fato curioso no processo de formação deste veículo é a preocupação com a ética dos profissionais atuantes. De acordo com Sérgio Mattos, a principal exigência para fazer parte da equipe de jornalista da Tribuna era a exclusividade.
“Até aquela época, era permitido que o jornalista fizesse bico trabalhando no Estado, para o governo, para empresas e a Tribuna veio e disse que ia pagar mais, mas que não podia trabalhar em lugar nenhum, nem fazer assessoria de imprensa e nem receber 'jabá'. Isso foi caracterizado como uma norma ética da empresa, porque até aquele momento essas coisas eram realmente comuns. E a Tribuna acabou com isso, acabou com a picaretagem”, conta.
Outro fator comum abolido pelo jornal, segundo Osvaldo Gomes, era o envolvimento de jornalistas com anúncios. “A imprensa naquela época, na Bahia, não era eticamente correta. Nos outros jornais, por exemplo, os jornalistas faziam matérias e também ganhavam dinheiro com anúncios. E isso era uma coisa que Quintino de maneira nenhuma aceitava”, lembra.
Repercussão
Os concorrentes da Tribuna no período eram os vespertinos A Tarde e O Estado da Bahia e os matutinos Jornal da Bahia e Diário de Notícias.
Destes, somente o A Tarde continua circulando. Segundo Osvaldo Gomes, os jornais tiveram que se reposicionar diante das mudanças lançadas pela TB.
“A Tribuna chegou a ter uma tiragem maior que o A Tarde, que começou a se preocupar e começou a mudar e acompanhar o que a Tribuna estava fazendo”, lembra.
Para ele, não há como negar que o Jornal da Bahia foi muito importante na mudança do status quo da imprensa baiana, mas a TB veio para completar e teve uma grande importância nesse processo de mudança.
Gomes assegura que, naquele momento, eles não estavam preocupados com os outros veículos. “O Segundo Caderno da Tribuna era uma coisa moderna, com as coisas que estavam acontecendo no mundo todo e o A Tarde era uma coisa pequena, colunas sociais, com coisas do interior. Estávamos tentando crescer. Quintino era um grande jornalista, e a gente ia atrás do que ele queria”, recorda.
Tasso Franco (foto à direita) conta que enquanto a Tribuna saía colorido, com fotos nítidas, valorizando o branco, os concorrentes eram monocromáticos.
“Como os jornais eram à quente, a fogo, soltavam mais a tinta. O leitor sujava as mãos. Todo mundo, depois que a Tribuna saiu, correu atrás para mudar seus sistemas para offset, porque isso estava ocorrendo no mundo todo”, diz.
A morte de Quintino de Carvalho é apontada pelos jornalistas que trabalharam durante os anos iniciais do jornal Tribuna da Bahia como uma das causas do começo da decadência do jornal.
Quatro décadas depois
Depois de Elmano Castro, Joaci Góes assumiu a diretoria do TB para posteriormente repassá-la para Walter Pinheiro que, a partir de 1997, assumiria, em forma de cooperativa com outros companheiros da redação, a tarefa de conduzir o jornal com o afastamento de Góes, que decidiu se dedicar a outras tarefas.
Mesmo com todas essas mudanças o jornal não conseguiu permanecer com o mesmo perfil do começo. Segundo Tasso Franco, em“40 anos, não se fez novos investimentos, nem na sua planta jornalística, nem na sua planta gráfica, então ela foi se defasando. Os investimentos não acompanhavam, e o jornal ficou para trás”.
No livro Memória da imprensa contemporânea da Bahia, Sérgio Mattos conta que não só a Tribuna passou por mudanças, como o jornalismo.
“O repórter procurava apurar bem, todos os fatos e transmiti-los da maneira mais direta possível, procurando sempre ouvir mais de uma fonte, buscando a verdade acima de tudo e tentando ser o mais isento possível", afirma.
Para o autor, os jornalistas atuais opinam sobre todos os assuntos, como se fossem especialistas e donos da verdade.
Segundo Osvaldo Gomes, as novas tecnologias têm contribuído para a decadência do jornal.
“A Tribuna está querendo sobreviver, não é fácil. Ela faz umas coisas que no nosso tempo não aceitávamos fazer. Mas eu não quero reclamar, porque é a única maneira de o jornal estar vivo. A Tribuna que está aqui hoje não tem nada a ver com a Tribuna que nós vivemos. São coisas diferentes", assegura.
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